Você recebe o salário, abre a corretora e começa tudo de novo: qual ação comprar neste mês?
Assiste a uma análise. Depois a outra. Descobre uma empresa que não conhecia. Encontra alguém dizendo que o setor da vez é outro. Quando percebe, sua carteira ganhou mais um código — e sua estratégia ganhou mais uma exceção.
Eu questiono esse hábito. Não porque exista um número mágico de ações, mas porque acumular investimentos é diferente de construir uma carteira que você entende.
Para explicar a diferença, montei um exemplo com três empresas, três funções e uma regra de aportes. A ideia não é entregar uma promessa de primeiro milhão. É mostrar quanto do processo pode ser simplificado antes de procurar a próxima oportunidade.
Ter mais ações não resolve uma estratégia confusa
Minha preferência é por foco. Quero saber por que escolhi uma empresa, o que espero dela e como pretendo acompanhar o negócio.
Quando cada aporte vira uma nova busca, fica fácil juntar vinte ou trinta ações sem conseguir explicar o papel de metade delas. A carteira cresce em quantidade de nomes, mas não necessariamente em clareza.
Isso não invalida a diversificação. Distribuir investimentos pode reduzir a exposição a problemas de uma empresa específica. Uma carteira com apenas três ações concentra mais esse risco, e escolher empresas conhecidas não o elimina.
Também não existe um limite universal de dez ou quinze ativos acima do qual a proteção deixa de mudar para qualquer investidor. O risco depende das posições, dos pesos e da relação entre elas, não só da contagem de códigos.
O que eu combato é a diversificação sem critério. Concentrar também exige critério — e pode ampliar tanto os ganhos quanto as perdas. Entender três empresas não torna seu futuro garantido.
Três empresas, três funções diferentes
No exemplo, escolhi Taesa, Petrobras e Porto Seguro. Não são três nomes intercambiáveis. Cada uma ocupa um lugar na lógica que eu quis explorar.
Taesa: a vaca leiteira
Chamo de “vaca leiteira” a empresa cujo papel, nesse raciocínio, está mais ligado à distribuição de resultados. No exemplo, esse lugar ficou com Taesa, por meio de TAEE3.
A imagem do leite ajuda a explicar a função pretendida: gerar recursos que possam ser reinvestidos. Não significa renda mensal contratada. Dividendos dependem dos resultados e das decisões de distribuição, e a cotação pode oscilar.
Uma carteira voltada à acumulação pode usar os proventos para aumentar as posições. Isso é diferente de tratar dividendos como substitutos de uma reserva para imprevistos.
Petrobras: a tese ligada à relevância do petróleo
Para Petrobras, a tese apresentada foi a importância do petróleo em diferentes atividades, não apenas no combustível dos carros. A discussão sobre veículos elétricos, sozinha, não esgota a análise do negócio.
Na composição do exemplo, atribuí à empresa um papel de crescimento e geração de resultados. Essa é a função pretendida na estratégia, não uma classificação que torna seu desempenho previsível.
A companhia continua sujeita a riscos empresariais, decisões políticas, oscilações do petróleo e mudanças no setor. Ignorar manchetes sensacionalistas é uma coisa. Ignorar fatos que alteram o negócio é outra.
Porto Seguro: a demanda por proteção
O terceiro papel ficou com Porto Seguro, PSSA3. A tese passa pela necessidade de proteção de pessoas, famílias e empresas e pela forma como uma seguradora atende a essa demanda.
Aqui, meu interesse está na continuidade do negócio ao longo do tempo. Um setor relevante, porém, não garante crescimento constante, dividendos ou valorização de toda empresa que participa dele.
O que une as três escolhas é a tentativa de atribuir funções diferentes às posições. O exemplo é educativo: não significa que essa composição sirva para você nem que substitua a organização do restante do seu patrimônio.
A regra que tirei da cabeça e coloquei no calendário
Na simulação, considerei aportes de R$ 300 por mês, sempre no dia 10. O valor era uma premissa do exercício. O dia fixo servia para reduzir a negociação mensal comigo mesmo.
Receber, separar o dinheiro destinado a investir e seguir um processo. Sem transformar cada aporte em uma competição para descobrir a melhor compra do planeta.
A terceira regra era direcionar o aporte, junto com os dividendos recebidos, à ação que apresentasse a menor rentabilidade entre as três, segundo a referência utilizada na planilha. Para iniciar essa comparação, o exercício partia da compra de uma ação de cada empresa.
Em alguns meses, o dinheiro iria para uma companhia. Em outros, para outra. Poderia ficar vários meses concentrado na mesma. A distribuição final não precisava terminar em três partes iguais.
Essa regra precisa ser entendida com precisão: menor rentabilidade passada não é sinônimo de menor preço em relação ao valor do negócio. Uma ação pode cair porque a empresa piorou. Nesse caso, a queda não a transforma automaticamente em promoção.
Também é necessário definir qual referência mede a rentabilidade. Comparar o preço com uma compra inicial não é a mesma coisa que comparar com o preço médio atualizado. Uma regra só pode ser reproduzida quando essa definição está clara.
O resultado histórico chama atenção. As premissas também precisam chamar
O exercício usava preços e dividendos desde março de 2018, em um período descrito como aproximadamente oito anos. O resultado apresentado foi de cerca de R$ 203 mil de patrimônio, para aproximadamente R$ 29 mil em aportes próprios, com reinvestimento dos proventos.
Também foram mencionados cerca de R$ 91 mil em dividendos ao longo do período. Esse fluxo era reinvestido: não deve ser somado novamente ao patrimônio final como se fosse um ganho separado ainda disponível.
Esses são números apresentados na simulação original, não um resultado auditado ou uma projeção para os próximos anos. Sem conferir a planilha completa, não é possível validar os preços, eventos societários, custos, tributos, datas de reinvestimento e o critério exato de comparação.
Por isso, não trato os percentuais de rentabilidade anunciados no exercício como taxas verificadas. Com aportes em datas diferentes, dividir o patrimônio final pelo total investido não produz, por si só, uma taxa anual comparável. A TIR também depende dos valores e das datas de cada fluxo.
Há ainda uma diferença importante entre estudar empresas que tiveram determinado resultado e conseguir escolhê-las antes de saber esse resultado. A seleção dos ativos e do período pode influenciar muito uma simulação histórica.
Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. O valor educativo do exemplo está no processo que ele permite discutir, não em prometer que R$ 300 por mês produzirão aquele mesmo patrimônio.
Disciplina não é comprar no automático para sempre
Uma regra simples evita decisões improvisadas. Mas ela não autoriza aumentar indefinidamente a exposição a um negócio cuja tese deixou de fazer sentido.
Eu separo duas perguntas: a empresa continua atendendo aos critérios da estratégia? E como o próximo aporte afeta o conjunto da carteira?
A segunda conversa se conecta à minha regra de rebalanceamento pelos próximos aportes. Ela é um assunto complementar; não foi incluída retroativamente na simulação para mudar seus resultados.
E, antes de copiar qualquer lista de ações, encare as perguntas sobre risco que precisam vir antes da compra. Se uma queda importante obrigaria você a vender para pagar as contas, o problema começa antes da escolha do código.
O primeiro milhão não cabe numa lista de três códigos
Minha reconstrução financeira passou por trabalho, estudo e consistência durante anos. Não por descobrir uma carteira secreta que dispensasse todo o resto.
Uma lista de ações não define sua capacidade de aporte, seu prazo, suas necessidades de liquidez nem sua reação às perdas. E nenhuma simulação resolve essas decisões por você.
Antes do próximo aporte, faça um teste: explique a função de cada investimento e a regra que orienta suas compras. Se precisar abrir dez análises para responder, talvez a próxima melhoria não seja adicionar outra empresa.
Talvez seja parar de trocar de estratégia todo mês.
Na Mentoria CCZ, trabalho essa construção de autonomia: entender o processo e tomar decisões com critérios, sem depender da dica da semana. Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação individual de investimentos.
Se preferir assistir, o conteúdo original está no YouTube.
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