Saí de R$ 200 mil em dívidas. Hoje eu não ignoraria este custo

Eu consegui sair de mais de R$ 200 mil em dívidas. Mas não conto essa história como se atravessar tudo na força bruta tivesse sido uma vitória sem custo.

Minha empresa tinha quebrado, eu tinha duas filhas pequenas e minha esposa estava desempregada. Chegou a faltar dinheiro para comida. Eu precisava resolver as contas e sustentar a família. Fui fazendo o que conseguia, até dar a volta por cima.

Anos depois, passei por dificuldades psicológicas e fiz dois anos de terapia. Hoje, olhando para trás, eu não trataria o cuidado comigo como uma tarefa que só poderia começar depois de resolver a vida financeira.

Quando alguém pergunta como sair das dívidas, geralmente recebe uma lista de cortes, renegociações e ferramentas. Tudo isso pode ser necessário. Mas existe uma pessoa tentando executar esse plano. Se ela está esgotada, o problema não se resolve apenas com uma planilha mais bonita.

Não é pensamento positivo. Também não é uma receita médica

Eu valorizo muito a relação entre disposição, rotina e capacidade de enfrentar problemas. Não sou profissional da saúde. O que posso compartilhar é minha experiência e a importância que passei a dar a essa parte da vida.

Meu relato não permite diagnosticar a causa do cansaço de outra pessoa. Dívida não comprova deficiência de vitaminas nem alteração hormonal. E cuidar da saúde não exige esperar para começar a organizar as contas: essas frentes podem andar juntas, preservando alimentação, moradia e cuidados essenciais.

Estas são as nove frentes que eu colocaria nessa conversa. Não uma promessa de quitação em determinado prazo, nem uma prescrição de tratamento.

1. Levar a falta de disposição a uma avaliação de saúde

Se a pessoa não consegue levantar da cama, está sempre exausta ou perdeu a clareza para lidar com a rotina, eu não reduziria tudo a falta de vontade. Procuraria profissionais qualificados para entender o que está acontecendo.

Na minha reflexão sobre o passado, passei a dar atenção a exames e a questões como B12, vitamina D, ferro e hormônios. Mas eu não tinha exames daquele período que comprovassem minhas hipóteses. Não seria correto transformar uma suspeita retrospectiva em diagnóstico.

A avaliação clínica é que deve orientar quais exames fazem sentido. Não é necessário comprar uma bateria de testes por conta própria nem deixar de atender necessidades básicas para seguir uma lista genérica.

2. Tratar vitaminas como questão de saúde, não como atalho

A vitamina D ganhou espaço na minha atenção com a saúde. Só que o fato de um assunto ser importante não significa que todo mundo precise do mesmo suplemento ou da mesma quantidade.

A diretriz da Endocrine Society de 2024 não recomenda testes de rotina nem suplementação acima das necessidades nutricionais usuais para todos os adultos saudáveis com menos de 75 anos. Existem situações específicas, e a conduta depende da avaliação de cada pessoa.

Estar endividado não é indicação para tomar vitamina. Investigar e tratar uma deficiência, quando houver, pertence ao cuidado de saúde — não é um método para ganhar dinheiro.

3. Encontrar uma rotina de exercício que você consiga manter

Durante muito tempo, eu dizia que odiava academia: era chato, repetitivo e eu não tinha tempo. Tentei começar várias vezes sem conseguir manter.

A mudança veio quando procurei uma rotina mais simples. Comecei com treinos de força três vezes por semana, com sessões de aproximadamente quarenta minutos. Passei pelo StrongLifts 5×5, pelo Madcow 5×5 e pelo 5/3/1. São experiências do meu percurso, não uma ficha de treino para quem está lendo.

O que me interessa nessa história é a possibilidade de sustentar um hábito. Um plano cheio de exigências, que eu abandono rapidamente, não ajuda. A atividade e a intensidade precisam ser adequadas à condição de cada pessoa, com orientação quando necessária. Não é preciso imitar minhas cargas ou meus protocolos para começar a cuidar do corpo.

4. Parar de tratar o sono como sobra do dia

Já vivi noites em claro por causa do estresse e tive problemas com o uso de zolpidem. Organizar minha rotina de sono foi uma parte importante do cuidado comigo.

Celular e entretenimento podem ocupar justamente o horário que eu precisaria preservar para descansar. Quando tudo vira prioridade, o sono acaba recebendo o que sobrou — e às vezes não sobra nada.

Minha experiência não significa que ninguém precise de medicação. Insônia persistente e problemas com remédios precisam de avaliação profissional. Não interrompa nem altere um tratamento por causa de um relato pessoal.

5. Separar minha experiência com testosterona de uma indicação para você

Também relatei minha experiência com o uso de testosterona e a diferença de energia e confiança que percebi. Essa percepção faz parte da minha história, mas não demonstra que o mesmo uso seja indicado ou seguro para outra pessoa.

A diretriz clínica sobre hipogonadismo masculino exige sintomas compatíveis e níveis inequivocamente baixos, confirmados em avaliações apropriadas, para estabelecer o diagnóstico. Tratamento envolve contraindicações e acompanhamento; não é uma indicação geral para homens cansados ou pressionados financeiramente.

Aumentar testosterona não é tratamento para endividamento, nem uma meta de produtividade. Meu relato não substitui diagnóstico e não deve servir como incentivo para usar hormônios por conta própria.

6. Ter um lazer que realmente interrompa a rotina

Quando a vida se resume a trabalho, dívida e preocupação, é fácil esquecer que existe alguma coisa além de resolver problemas. Eu gosto da ideia de escolher um lazer que contraste com o esforço predominante do dia.

Quem passa o dia sentado diante de uma tela pode experimentar uma atividade fora dela: brincar, caminhar, jogar alguma coisa. Quem trabalha com esforço físico pode desejar descanso e um filme. O ponto é observar o que é prazeroso e cabe na vida real, não obedecer a uma regra universal.

Descansar não precisa significar acrescentar uma despesa que depois vira outra preocupação. Lazer e reorganização financeira precisam conversar.

7. Fazer os cortes que você está adiando

Cuidar de mim não elimina a parte desconfortável da conta. Se as despesas continuam maiores do que eu consigo sustentar, alguma coisa precisa mudar.

Eu começaria pelas cobranças recorrentes e assinaturas que se acumulam na fatura: serviços que não uso, planos maiores do que preciso e gastos que continuam existindo por inércia. Trocar o cartão, sozinho, não garante o cancelamento desses contratos. É preciso conferir e cancelar cada serviço pelos canais adequados.

Depois vêm escolhas mais visíveis: reduzir um plano de internet, rever o celular, diminuir a frequência de um consumo ou trocar um lazer caro por outro mais acessível. São exemplos de decisões, não preços ou ofertas atuais.

Para mim, uma parte difícil é o significado que damos ao corte. Parece que viver com menos por um período prova que fracassamos. Não prova. Pode ser uma decisão temporária para interromper uma situação que está piorando.

Colocar uma data para revisar os cortes — em três ou seis meses, por exemplo — ajuda a tornar a mudança concreta. Revisar não significa prometer que tudo voltará ao padrão anterior naquele dia. Significa conferir o que melhorou e o que o orçamento permite.

A mesma tensão entre dinheiro, expectativas e qualidade de vida aparece quando discuto organizar o orçamento sem transformar a vida em sacrifício. Não é uma disputa para ver quem sofre mais.

8. Controlar o dinheiro com uma ferramenta que você usa

Eu prefiro um controle simples que continue funcionando a um sistema perfeito que ninguém abre. Até o WhatsApp pode servir para registrar gastos e criar o hábito de revisá-los.

A ideia é registrar durante a semana e reservar um momento para olhar o conjunto. Onde o dinheiro está indo? O corte aconteceu de verdade ou ficou só na intenção?

Para perceber padrões de consumo, arredondamentos podem facilitar o começo. Mas uma estimativa de gastos não substitui os valores exatos de faturas, parcelas e contas a pagar. Simplicidade não é ignorar vencimentos nem conferir pagamentos de memória.

9. Aprender a tomar decisões, não apenas a apagar incêndios

Um livro que me ajudou foi Como organizar sua vida financeira, de Gustavo Cerbasi. Vários conceitos daquela leitura continuaram presentes no meu dia a dia.

Ler não precisa virar mais uma compra feita no impulso. Pegar emprestado ou procurar um exemplar usado também pode ser um caminho. O importante é levar alguma coisa da leitura para uma decisão concreta.

Não me interessa acumular informação enquanto repito o mesmo comportamento. Quero entender melhor as escolhas que faço e reduzir a dependência de improvisos.

Você não precisa se abandonar para reorganizar a vida

Eu saí das dívidas. Também aprendi que conseguir pagar as contas não torna irrelevante o preço pessoal de atravessar aquele processo.

A mensagem que quero deixar é esta: olhe para os números e para a pessoa que precisa lidar com eles. Busque cuidado profissional quando necessário, faça os cortes possíveis e construa um controle que caiba na sua rotina. Uma frente não precisa esperar a outra ficar perfeita.

Se você quer conhecer meu trabalho de educação financeira, conheça a Mentoria CCZ. Avalie se ela faz sentido para seu momento, sem comprometer despesas essenciais. O objetivo é construir mais clareza — não acrescentar outra pressão.

O conteúdo original está disponível nesta conversa sobre dívidas e cuidado pessoal.


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