Meu Civic estava quitado. Eu podia continuar com ele, não estava sendo obrigado a vender e já tinha construído um patrimônio razoável. Mesmo assim, decidi ficar um ano inteiro sem carro.
A economia com seguro, manutenção e combustível era previsível. O que me surpreendeu foi outra coisa: começou a sobrar mais dinheiro do que eu esperava. Não apenas porque deixei de gastar com o carro, mas porque deixei de fazer várias compras e passeios que a facilidade de ter um carro colocava na minha rotina.
Essa é a diferença que costuma desaparecer da conta. Quanto você gasta com o carro? E quanto você gasta por ter um carro?
Ficar sem carro por escolha foi diferente de ficar por necessidade
Eu conheço os dois lados. Já tive um carro em situação de busca e apreensão. Em 2013, depois de quebrar uma empresa, acumulei mais de R$ 200 mil em dívidas, tinha duas filhas pequenas e minha esposa estava desempregada. Chegou a faltar dinheiro para comida.
Consegui um emprego, voltei a trabalhar e comecei a investir. Aproximadamente dez anos depois, alcancei minha liberdade financeira. A decisão de ficar sem carro por opção fez parte desse caminho de rever gastos e acumular patrimônio.
Na segunda situação, não havia uma dívida me obrigando a entregar a chave. Havia uma pergunta: manter aquele padrão fazia sentido para a vida que eu queria construir?
Antes de vender o carro, eu mudei a rotina
Minha esposa e eu já estávamos adotando decisões mais minimalistas. Mas houve uma mudança anterior que tornou a experiência possível: fomos morar perto do trabalho.
Isso não é um detalhe. Se o carro é necessário para chegar ao emprego, a conta inclui essa necessidade. Não adianta copiar minha decisão e ignorar as condições que permitiram que ela funcionasse.
No meu caso, morar perto de onde trabalhava reduziu a dependência do veículo. Para outros deslocamentos, eu podia usar transporte por aplicativo ou alugar um carro. Essas alternativas também custavam dinheiro e precisavam entrar na comparação.
Localização, trabalho e mobilidade fazem parte da mesma decisão financeira. É um raciocínio parecido com o que discuto sobre comprar ou alugar o apartamento em que moro: olhar apenas para o bem pode esconder o custo da vida organizada ao redor dele.
A primeira conta: dinheiro parado, financiamento e custos
Meu Civic valia, na época, algo em torno de R$ 115 mil a R$ 120 mil. Depois da venda, destinei o dinheiro a ações. Esse foi o destino que escolhi para o capital; não uma indicação para que qualquer pessoa venda o carro e compre os mesmos investimentos.
Para tornar o custo de oportunidade mais fácil de visualizar, usei uma simulação com um carro de R$ 40 mil. Se ele fosse financiado, seria necessário comparar o preço à vista com o total pago no contrato, além da desvalorização e das despesas de uso. Juros e valor de revenda variam: não existe uma conta única que sirva para todo carro.
Também considerei uma hipótese com ações do Banco do Brasil: R$ 40 mil a um preço de R$ 20 por ação comprariam 2 mil ações. Sob a premissa de R$ 15,67 em proventos acumulados por ação ao longo de cinco anos, o total seria R$ 31.340.
Dividido por sessenta meses, isso representa uma média aproximada de R$ 522. Não significa que a empresa pagaria esse valor todos os meses. É a média matemática de uma simulação, não uma renda mensal contratada nem uma projeção de retorno futuro.
Esses valores são as premissas do exemplo, não uma reconstituição auditada do desempenho de BBAS3. Preços, eventos societários, tributação e reinvestimentos mudariam uma comparação histórica completa. E o patrimônio ao final dependeria também do preço das ações: não basta somar o capital inicial aos proventos para afirmar quanto a carteira valeria.
A comparação tem um limite óbvio: ações não levam ninguém ao trabalho. O carro oferece um serviço, enquanto o investimento tem outra função e envolve risco. A pergunta útil é quanto custa a mobilidade de que você realmente precisa e quanto capital sobra depois dela.
A segunda conta: os gastos que a comodidade criava
Com o carro na garagem, qualquer convite encontrava uma resposta fácil. Aniversário de parente? Vamos. Um passeio porque bateu tédio? Vamos. Shopping, praia, parque, um lanche em outro lugar? Era só pegar a chave.
O combustível era apenas uma parte do gasto. Vinham o presente, a comida, o estacionamento, o pedágio e outras despesas associadas à saída. Isoladamente, cada uma parecia pequena. Somadas, tinham um peso importante.
Sem carro, eu passei a enxergar o custo antes de aceitar. Em algumas ocasiões, alugar um veículo significava gastar algo entre R$ 200 e R$ 300 na diária, pelos valores que eu encontrava naquele período, fora o restante. A vontade de ir precisava sobreviver a essa conta.
Muitas vezes, eu decidia não ir. Houve um afastamento maior de parte da família e de um círculo de amigos naquele ano. Isso também foi uma consequência da escolha, não um detalhe que desaparece porque a planilha melhorou.
Foi assim que percebi de onde vinha a sobra adicional: a facilidade de sair também facilitava gastar. O carro não me obrigava a consumir, mas tirava do caminho uma pausa que me faria pensar.
A pergunta sobre o carro era uma pergunta sobre meu ego
Quando eu dizia que não tinha carro, algumas pessoas estranhavam. Nem uma moto? Nenhum carrinho? Parecia difícil acreditar que aquela fosse uma escolha.
Eu também cresci associando um carro melhor à ideia de sucesso. Dizer que não ligava para a opinião dos outros era fácil enquanto minha garagem ajudava a sustentar a imagem. Ficar sem carro colocou essa convicção à prova.
Não deixei de me importar completamente com o julgamento alheio. Mas percebi quanto ele influenciava decisões que eu apresentava a mim mesmo como puramente práticas. A experiência mexeu com o orçamento e com essa necessidade de justificar minha vida.
Depois de um ano, comprei outro carro. Não outro Civic
O combinado era testar por pelo menos um ano. Depois desse período, decidimos voltar a ter carro. Eu poderia comprar outro Civic, ou algo melhor, mas já não via a mesma necessidade.
Continuávamos perto do trabalho e dos serviços que usávamos. Sem pressa, esperamos uma oportunidade dentro do orçamento e compramos um Kwid por R$ 42 mil. Era suficiente para os deslocamentos que queríamos fazer, com custos mais adequados à nossa escolha.
A experiência não terminou com uma proibição de ter carro. Terminou com uma relação diferente com ele. Deixou de ser uma demonstração de sucesso e voltou a ser um meio de transporte.
Antes de decidir vender o seu, faça as duas contas: o custo de manter o veículo e o consumo que sua rotina de mobilidade favorece. Inclua as alternativas de transporte e o que muda na vida da família. A minha experiência serve para abrir essa discussão, não para encerrar a sua.
Se você quer desenvolver critérios para essas decisões e para a construção do seu patrimônio, conheça a Mentoria CCZ. Ter condições de comprar não obriga você a comprar. E ter menos na garagem não significa ter menos na vida.
O conteúdo original está disponível nesta conversa sobre a experiência de ficar sem carro.
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